SÃO PAULO E SÃO PAULO
 

A ele eu conheci em minha infância. Infância distante, no distante interior de São Paulo. Infância em que não havia – imaginem – TV! Nem computador! Nem videogame! O rádio, este sim, havia, mas eram uns poucos aparelhos, que transmitiam mais estática do que som...
De início, eu só podia contar com um receptor: uma grande caixa de madeira escura, com dois botões enormes e um visor em que se movia – entre silvos e apitos - um ponteiro vermelho procurando, ruidosamente, sintonizar uma estação mais ou menos “audível”. Essa maravilha, esse avanço extraordinário da ciência ficava em casa de meu tio Vitor e, para ouvir o que era possível entre um chiado e outro, eu precisava dar uma boa caminhada... A pé ou de bicicleta, é claro, porque qualquer outro meio de locomoção era inexistente ou impraticável. É bem verdade que havia também as morosas charretes, trotando e fazendo soar o ruído característico do choque das ferraduras contra o piso de asfalto ou paralelepípedo das ruas, e, vez em quando, o estalido do chicote dos condutores... Ficavam elas, em sua maioria, estacionadas junto à estação da Estrada de Ferro Sorocabana, à espera de passageiros para os levar ao Municipal Hotel ou ao Hotel Central, porque os que iam para o Hotel da Estação faziam o curto trajeto a pé...
Meu deleite era ouvir dois fantásticos programas: “Balança mas não cai”, com um grande elenco de comediantes, e “PRK-30”, com a sensacional dupla Lauro Borges e Castro Barbosa...
Os textos eram tranqüilos, singelos e as piadas leves e graciosas, quase pueris! Já se criavam bordões que, a partir do dia seguinte, eram repetidos em alegres rodas de conversa, sem necessidade de qualquer censura prévia... eram inocentes chistes e brincadeiras.
Por isso, porque não havia tantos derivativos eletrônicos, as pessoas tinham tempo para conversar – ou “prosear”, como se falava então - e as prosas transcorriam animadas, gostosas, cheias de “causos” e anedotas.
Anedotas, sabem todos, não é o mesmo que piada. Esta é sempre ficção; aquela tem um “compromisso” com a realidade. Aurélio assim a define: “1. Relato sucinto de um fato jocoso ou curioso. 2. Particularidade engraçada de figura histórica ou lendária.” Muitas anedotas são mais engraçadas que piadas... Eu aqui me permito contar uma, que os velhos prudentinos poderão confirmar.
Há, em toda cidade interiorana, figuras populares, características. Em minha cidade, entre outras figuras marcantes, destacava-se a do “Varte Bugiganga”. Magro, pele muito vermelha, curtida de sol, cabelos louros e olhos muito claros, todos o conheciam e estimavam. Era visita freqüente em minha casa, onde era recebido com muita estima e atenção. Conversei com ele muitas vezes, pois sabia manter uma prosa agradável e leve.
Alguns anos mais tarde, quando já morávamos na capital, sua filha Helena, professora, vindo fazer um curso em São Paulo, ficou hospedada em nossa casa. Então – só então – fiquei sabendo que “Varte Bugiganga” não era a junção de um nome a um apelido, como eu sempre supusera. Era apenas a corruptela do nome e sobrenome de seu pai, um cidadão de ascendência inglesa chamado Walter Buckingham! É nisso que dá ter nome complicado no interior! No interior antigo, fique bem claro!

Para mais um pouquinho de nostalgia, cabe lembrar que as comunicações eram um caso à parte. Se alguém precisasse fazer uma chamada interurbana, ia até a Companhia Telefônica, solicitava a ligação e era informado do tempo para que ela se cumprisse: duas, três, quatro horas! O solicitante, então, ia cuidar de outros afazeres e, na hora aprazada, voltava à Telefônica e, se tudo desse certo, conseguia falar – aos berros, quase sempre – com o local desejado...
Ah! Mas na área de transportes, a situação era bem outra. Contávamos com um inegável privilégio: os possantes C-47 da Cruzeiro do Sul e da Vasp, desenvolvendo  - pasmem! - a incrível velocidade de 270 quilômetros por hora, já pousavam em nosso aeródromo. Que cá entre nós, não era chamado por esse pomposo nome: para nós era apenas o “campo de aviação”...
E que dizer do mundo cinematográfico? Tínhamos dois cinemas, sim senhor! O Cine João Gomes e o Cine Fênix! Cine não: cine-teatro, porque ali também se apresentavam espetáculos e artistas de nomeada de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais...
Aos domingos, as matinées (era assim que se escrevia!) eram fabulosas! Começavam com “overture e trailer”, vindo então o jornal, em seguida o desenho animado, depois o filme e, para fechar, o seriado! De sua parte, o jornal, mostrando cenas do país e do mundo, era muito atualizado: entre a notícia e sua exibição na tela, não havia decorrido mais que quatro a seis meses, no máximo!
Esse conjunto de maravilhas constituía, para mim, um “admirável mundo novo”!
Isso porque, embora eu tenha nascido na cidade, logo em seguida fomos morar na zona rural. Foi ali que iniciei meus estudos. E ao referir-me a isso, é forçoso lembrar as palavras inspiradas do velho Ataulfo Alves, “que saudade da professorinha que me ensinou o beabá...”
Minha primeira professora – ainda na escolinha rural - foi meu primeiro e arrebatador amor! Como dona Idalina era linda! Morena, esguia, com um sorriso angelical e voz suave, só não se tornou minha esposa por uma leve diferença de idade e também – é bom que se diga – porque nunca soube da imensa paixão que despertou em mim...
Minha segunda paixão nasceu nessa mesma época: a paixão pela leitura! Ao aprender a ler, descobri um universo sem fronteiras, um espaço para voar sem asas e um vasto oceano em que podia mergulhar a qualquer instante e a grandes profundidades!
Já então estávamos de novo na cidade, e tudo se tornava mais fácil: havia uma biblioteca pública com vasta coleção de livros para todos os gostos e, de todos eles, encantavam-me especialmente as obras de Monteiro Lobato!

LEITURA. Este é outro antigo e salutar hábito profundamente prejudicado pela cruel, desigual e acirrada concorrência da TV! Os livros são transformados (às vezes, “deformados”...) em filmes, vêm para a “telinha” e as pessoas acham muito mais fácil, prático e agradável tomar contato com eles assim, como um produto desidratado, pasteurizado e até mesmo adulterado!

Pois foi pela leitura que eu o conheci!

Entre os primeiros livros que comecei a ler – por instância de minha boa mãezinha – estava a Bíblia. De difícil compreensão no Velho Testamento, tornava-se mais simples e mais próxima de minha experiência pessoal a linguagem dos 27 livros do Novo Testamento, nem todos, na verdade, tão simples assim. Apocalipse, por exemplo, é mais complexo do que muitos livros do Antigo Testamento. Os outros não: falam da vinda e da vida de Jesus, dos encantadores Reis Magos, dos muitos milagres e das belas parábolas do suave Rabi da Galiléia e tantas outras coisas de fácil e gostosa assimilação.
Indo além dos quatro Evangelhos, Atos dos Apóstolos, como narrativa histórica, me fascinava...E lá, entre os discípulos, apóstolos e seguidores do Mestre, um vulto se destacava. Sua história era diferente da de todos os demais. Inicialmente perseguidor ferrenho dos cristãos, ele participa diretamente do assassinato de Estevão, o primeiro mártir.
Não satisfeito com isso, mune-se de cartas das autoridades e se dispõe a ir prender aqueles que ele considera hereges, onde quer que os encontrasse. E é numa dessas empreitadas, na estrada de Damasco, que ele, literalmente, “cai do cavalo”! Prostrado ao solo, enceguecido por um forte clarão, ele ouve uma voz que lhe diz, com clareza: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Atônito, indaga: “Quem és, Senhor?” Desse início de diálogo com Cristo, começa uma nova etapa em sua vida, marcada pelo que ele próprio chama de “metanóia”: mudança de mente!

 

Mudando de perseguidor a perseguido, passa a padecer sofrimentos ainda mais cruéis do que aqueles que ele havia infligido aos “ seguidores do caminho”. Entretanto, em momento algum vacila ou fraqueja! Suas palavras são sempre firmes e incisivas, próprias para cada momento: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação”, escreve ao jovem Timóteo. Aos Gálatas proclama: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. Na carta aos Filipenses, assevera: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho”. Para os cristãos de Roma, dirige palavras que motivam e confortam: “Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”; “Tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que nos há de ser revelada”; “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Aos mesmos cristãos de Filipos, reforça: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos”; “Não estejais inquietos por coisa alguma”; e sua afirmação categórica de fé, repetida hoje por milhões de pessoas ao redor do mundo: “Tudo posso naquele que me fortalece”. É, porém, em sua primeira epístola aos Coríntios, que ele escreve uma das mais extraordinárias páginas da literatura espiritual de todos os tempos, que assim inicia: “Ainda que eu falasse as línguas dos anjos e dos homens, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine...”
Suas vigorosas mensagens, que compõem 13 dos 27 livros que formam o Novo Testamento, ele as escreveu sem deixar de empreender três longas e extenuantes viagens missionárias, por grande parte do mundo então conhecido! Os textos são de indiscutível valor inspiracional, orientacional, pedagógico e teológico. Pode-se dizer, sem exagero, que São Paulo foi o precursor – no início da civilização cristã – do Curso de Teologia a Distância!
Por tudo o que foi e o que fez, o extraordinário “Apóstolo das Gentes” pôde escrever, ao sentir aproximar o fim de sua permanência na terra: “Combati o bom combate, acabei a carreira
e guardei a fé”.

Este foi ele – SÃO PAULO - o mais autêntico dos discípulos do Mestre, e que conheci através da leitura bíblica.

Então, em minha passagem da infância para a adolescência, chegou o momento de conhecer a ela – SÃO PAULO – a mais notável, bela, rica, charmosa, esplendorosa e fantástica cidade da América Latina, e uma das maiores metrópoles do mundo!
Até então, eu vivera em minha Presidente Prudente, a quase 600 quilômetros de “lonjura” da capital e a apenas 100 quilômetros da divisa com o Mato Grosso (naquele tempo apenas assim, porque ainda não tinha o “sobrenome” do Sul...), divisa feita pelo caudaloso Rio Paraná, sob o vão de mais de três quilômetros da Ponte Maurício Jopert. Meus irmãos, em suas férias, costumavam vir para São Paulo. Eu, apegado ao meu interiorzão, ia para o “mato”, caçar, pescar e gozar do contato com a natureza... Não sentia, não, atração por São Paulo...
Quando, entretanto, vi a “Paulicéia Desvairada” pela primeira vez, não tive alternativa: apaixonei-me perdidamente por ela! Que graça! Que grandiosidade! Que “belezura”!
São Paulo era uma cidade grande sim, mas ordeira, tranqüila, alegre, limpa e segura. Nas ruas e avenidas – bem mais largas que as de Prudente, por sinal – uma enxurrada de carros, que hoje seriam considerados “banheiras”, deslizavam: Nash, Studebaker, Chrisler, Oldsmobile, Cadilak, Ford, Chevrolet, Lincoln e, a seu lado, timidamente, desfilavam os pequenos Morris, Fiat Topolino, Prefect, Anglia...
O trânsito, nem caótico nem estressante, era controlado por semáforos manuais, manejados por elegantes Guardas Civis, em sua impecável farda azul com botões dourados. As travessias de pedestres, as entradas e saídas das escolas e o atendimento aos pedidos de informações e orientações aos cidadãos eram também sua atribuição. Outra função que exerciam era a de guarda ornamental, nos elegantes teatros, cinemas, espetáculos artísticos e outros eventos semelhantes. Nessas ocasiões, além do normal apuro do uniforme azul marinho, usavam luvas e polainas brancas!
Vez por outra, uma viatura alvinegra da Rádio Patrulha transitava com liberdade pelas ruas desimpedidas, raramente acionando a sirene. Esse ruído ficava mais por conta das ambulâncias – poucas e bem cuidadas – que nem de longe lembram as de hoje...

A Rádio Patrulha, incumbência da Força Pública do Estado de São Paulo, cuidava da segurança, propriamente dita, e tinha o encargo de dar combate aos atos criminosos – tão raros e tão acanhados daquela época! O mais famoso e “temido” criminoso chamava-se Meneguetti, e era conhecido por seus “ousados” furtos. Na calada da noite, entrava às escondidas nas mansões e casas de alto padrão, procurando levar dinheiro, jóias e valores outros. Ao menor ruído que indicasse a aproximação de alguém, ele se projetava janela a fora, alçando-se aos telhados e por ali fugindo...Violência, jamais! Seqüestro, era palavra que sequer se conhecia!
Inicialmente, morei no Cambuci, na Rua Backer (cujo nome eu nunca pronunciava de acordo com a expectativa dos interlocutores. Quando eu dizia BÁQUER, corrigiam para BÊICAR, mas se eu dissesse BÊICAR, havia sempre um toque recriminatório dos defensores da pronúncia à portuguesa, a indicar a forma vernácula BÁQUER!).
Estranhava muito quando as pessoas diziam que iam à cidade. Para mim elas queriam dizer que iam ao centro, pois já estavam na cidade...
O CENTRO, ah! O centro! Era um espaço maravilhoso! Os melhores restaurantes, cinemas, lojas, teatros, escritórios e consultórios aí se localizavam. Ruas de fino comércio, como Barão de Itapetininga, Sete de Abril, Dom José de Barros, 24 de Maio, assistiam à passagem diária de senhoras e senhoritas elegantemente trajadas, portando jóias verdadeiras de alto valor que, ao final das compras, dirigiam-se inexoravelmente ao Mappin Magazine, para seu chá da tarde!
Os homens não eram menos elegantes. Invariavelmente de terno – alguns portanto chapéus das famosas marcas Ramenzoni ou Prada – e bem polidos sapados Scatamachia ou Sútoris, desenvolviam suas atividades com serenidade e sem azáfama.
Assisti, embevecido, à comemoração do IV Centenário da cidade, com a inauguração do Parque do Ibirapuera, os jogos olímpicos e a inesquecível chuva de prata no belo vale do Anhangabaú – “O vale do povo”. Ouvi, repetidamente, os acordes sonoros do dobrado “IV Centenário” do Mário Zan. Ouvi, também, “São Paulo Quatrocentão” na  interpretação bonita de uma jovem e sorridente cantora chamada Hebe Camargo!

O tempo passou. A cidade cresceu. A violência surgiu e se desenvolveu. Os criminosos – outrora poucos e tímidos – tornaram-se muitos e, mais que ousados, abusados! Começaram por enfrentar as vítimas, atacando-as em plena luz do dia, e acabaram por atacar a própria polícia! O próprio estado! O centro sofreu esvaziamento, enfeamento, quase necrose; os cinemas e teatros – exceção honrosa feita ao majestoso Teatro Municipal – fecharam; o comércio fino desapareceu e, com ele, as senhoras e senhoritas elegantes que, feitas as compras, acorriam ao Mappin Magazine para seu chá da tarde... É lamentável, mas sequer o Mappin existe hoje! Como não mais existe a Slopper, a Sears, a Mesbla...

SÃO PAULO – a cidade – porém, honrando seu nobre patrono SÃO PAULO – o apóstolo – continua de pé. E, a seu modo, continua linda, majestosa, fantástica, rica em tradições, em cultura, em diversidade, em história, em poesia, em arquitetura e, principalmente, em sua condição de cadinho vivo em que se fundem todas as etnias, todas as cores, todas as línguas, todas as raças, todas as tendências... todas as esperanças!
E é por isso, porque ela, a grande e gloriosa São Paulo continua a ser para o Brasil e para o Mundo, a TERRA DA ESPERANÇA, que mantemos viva a esperança de revê-la, um dia, tão ou mais bela que antes, quando a conheceu e por ela se apaixonou  - à semelhança de tantos outros - um adolescente caipira da distante Presidente Prudente, que jamais se cansa de repetir: SÃO PAULO, EU TE AMO!