Nascida em 25 de janeiro de 1 554, a cidade de São Paulo conta pouco mais de quatro séculos e meio de existência. E de muita história!
História literária, contida nas muitas obras escritas em prosa e verso sobre nossa “Paulicéia Desvairada”. E história concreta, contada por sua variada e rica arquitetura, por seus prédios, monumentos, praças, ruas e avenidas, alamedas, vilas, vielas, túneis, passagens e outros incontáveis logradouros desta que é uma entre as três maiores metrópoles do mundo.
Andar por São Paulo, especialmente por seu centro, de olhos, alma e coração abertos é descortinar uma cidade de rara e surpreendente beleza, rica em diversidade arquitetônica e paisagística. Apenas à guisa de exemplo, o romântico Martinelli — primeiro arranha-céu da América do Sul — lá está, registro vivo do início da década de trinta. O nostálgico Viaduto Santa Ifigênia também se apresenta como preciosa reminiscência dos chamados “bons tempos”. Que palavras usar para descrever o majestoso Teatro Municipal? Que dizer dos edifícios que o circundam na Praça Ramos de Azevedo — muitos dos quais projetados pelo próprio Ramos de Azevedo? E o prédio dos Correios com seus 18.000 metros quadrados de pura história? E o pequeno e gracioso sobradinho verde do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo ?
Cruzando o poético Viaduto do Chá, sobre o ainda belo Vale do Anhangabaú — outrora designado sistematicamente como “o vale do povo” —, deparamos com o Edifício Matarazzo, sede hoje do Executivo Municipal, e que tem um verdadeiro bosque em sua cobertura, com plantas e árvores de porte, como bananeiras, jabuticabeiras e que tais...
Então, a partir da Praça do Patriarca, estende-se o chamado “centro velho”, que apresenta um respeitável conjunto de prédios cuja beleza arquitetônica impressiona e fascina e de que o edifício do Centro Cultural Banco do Brasil é uma boa amostra.
Dando sua contribuição, agregam-se espaços histórico-emblemáticos como o Pátio do Colégio, as Praças da Sé, da República e Dom José Gaspar, além da Ladeira da Memória, dos Largos de São Bento e do Café, entre tantos outros pontos marcados por suave nostalgia.
Tudo isso — e muito, muito mais — faz parte da história e da memória viva de nossa querida cidade. E é — ou pelo menos deveria ser — herança perene, que tivemos o privilégio de receber de nossos antepassados e que temos o dever de legar aos nossos pósteros.
Só que, de repente, alguém que vem administrar a cidade por um período de 4 a, no máximo, 8 anos entende de alterar isso ou aquilo, e lá se vai um valioso e irrecuperável patrimônio histórico. Ou então, para prestar homenagem — justa e cabível — a, por exemplo, um prestante cidadão, coloca seu nome em uma obra pública. E então um marco tradicional da história do bravo povo paulista, tão caro à memória de nossa gente, passa a ostentar o nome de apenas uma pessoa. Essa, conquanto digna da honraria, não tem o condão de representar os muitos heróis lembrados na antiga designação.
Por isso e para isso — para evitar dilapidações e lesões em relação ao imenso e valioso acervo histórico, cultural, arquitetônico, artístico e tradicional de São Paulo —, entendo necessária e oportuna a criação de um Conselho de Notáveis, que seria o guardião dessa extraordinária riqueza pública. Poderia chamar-se, por exemplo, Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de São Paulo, ou Conselho de Preservação do Patrimônio Paulistano¸ou como melhor decidissem os próprios conselheiros. Teria, a integrá-lo, personalidades que guardassem laços de respeito e de amor à nossa cidade. Sugiro alguns nomes: Paulo Bomfim; Hernani Donato; João de Scantimburgo; Paulo Nathanael Pereira de Souza, Luiz Gonzaga Bertelli, Guilherme Afif Domingos, Alencar Burti; Israel Dias Novaes; Mário Amato; Luiz Flávio Borges D’Urso; Gino Struffaldi, Nelly Candeias; Milu Villela; Ivete Senise Ferreira... |